Que surpresa senti ao verificar que escrevi no blogue, pela última vez, no dia 19 de Outubro de 2013.
Quase quatro anos volvidos, posso dizer que, numa parte substancial, a vida, a minha vida, como a conhecia, esfumou-se.
Em 2013 tinha a convicção de que a minha vinda para o Algarve seria um acidente de percurso, consequência de outros acidentes que não soube evitar, por defeito de personalidade, por feitio ou por outra coisa qualquer.
Não sei se acredito no que, vulgarmente, se designa por destino, certo é que a vida quis que fosse ficando, primeiro, apenas por imposição, depois, também, já por vontade, a que se alia, sem sombra de dúvida, a ausência de volição de voltar a um sítio onde apenas me poderei sentir esmagada pela mágoa e pela sensação de fracasso. Por tudo o que foi, por tudo o que pensei que era (mas que, porventura, nunca foi, afinal), por tudo o que deixou de ser.
Os recomeços serão sempre mais fáceis longe da vista do passado. O passado. Esse passado que não se esquece mas que, para lá das lições aprendidas, deve - assim me forço a pensar - ficar arrumado no seu lugar, sobretudo quando apenas se nos mostra (e isso é tão humano) nos episódios que deixaram marcas fundas no nosso peito.
Julgo que não será cobardia, ou talvez o seja, o que importa, afinal?
Aqui, longe do que antes entendia ser a minha terra, entrei, em 2016, na primeira (espero!) década dos entas.
A aspereza de estar longe, sobretudo, dos meus dois filhos - indiscutivel e inelutavelmente, a minha razão de viver -, as mágoas que, também aqui, ao Sul, se avolumaram no meu coração - a crueldade gratuita, a maledicência ignóbil existe em todo o lado e surge de onde menos se espera! -, têm-me feito crescer dolorosa, mas imensamente.
Aprendi a dizer não, imagine-se..! Aprendi a confiar mais em mim e, em especial, na minha capacidade de superação. Aprendi que, mesmo que a generalidade dos que nos rodeiam se não importe, há, ainda, pessoas que podemos fazer o nosso porto de abrigo. Que nos fazem querer ficar.
São poucos os nossos incondicionais, mas eles existem e dão sentido aos nossos dias.
Não é que não chova, tantas e tantas vezes, pelas janelas do rosto, que não sinta o tão profundo abandono que me corta a respiração, que não experimente, tantas e tantas vezes, uma ausência de sentimento de pertença, que não martele, ainda, o pensamento, teimoso, com os porquês e com todas as inseguranças que o mundo inteiro alberga e que carrego sobre os ombros cansados.
A vida não é fácil, deixar ir não é para fracos, nada foi, por mim, conseguido sem esforço, sem lágrimas, sem dores no corpo e na alma. Eu gostaria de poder dizê-lo de outra forma, dizer a minha verdade pessoal de outro modo, mas não posso.
Mais difícil, nas rasteiras da vida, nas portas que se fecham ou que nós mesmos fechamos, é não nos tornarmos pessoas amargas e cinzentas. Daquelas que geralmente queremos evitar para não sermos contaminados.
Preciso de me salvar. Preciso, já sei, de me tornar mais prática, preciso disso desde sempre. Hoje, vejo-o como a única tábua de salvação. Da minha salvação. Querer justiça para os outros, sim, mas querer, também, para mim, um coração mais amenizado (embora nunca conformado, também o sei e é uma dificuldade acrescida, não nego).
E preciso da escrita, esse apelo que nunca me larga, como que a dizer que os sonhos não podem ser mortos pela cicuta das coisas ruins.
Hoje, dia 28 de Agosto do ano 2017 depois de Cristo, estou de volta ao blogue.
Seja bem-vindo quem vier por bem.