Há certas coisas que, ocasionalmente, ouvimos e que nos provocam... bom, náuseas.
Se não nos dizem directamente respeito, procuramos esquecer. De forma rápida e indolor.
Todavia, por vezes, todo o esforço nesse sentido é vão. E pronto, sem saber como nem porquê, confontamo-nos com um problema: poeira alheia a perturbar as nossas engrenagens mentais.
Há cerca de três semanas, encontrava-me no interior de um estabelecimento comercial a tomar um contacto perfunctório com as novidades que o Outono trará consigo na área das pulseiras, colares e outras bugigangas, quando entra um casal de namorados.
Subitamente, ela, de expressão dengosa, segura num fio com um pendente em formato de "Tour Eiffel", coloca-o na direcção do olhar dele e afirma (ou "ronrona", talvez seja mais apropriado):
"- Olha, amor, para eu usar quando tu me levares a Paris!".
Confesso que, perante o teor de tal afirmação, não fui sequer capaz de percepcionar a reacção do destinatário da mesma (temo, porém, que tenha sido de absoluto deleite com tamanha submissão).
"Quando tu me levares a Paris?!"
No meio da minha incredulidade e das asneiras (pronto, das asneirinhas, que eu sou uma senhora e isso do português vernáculo faz-me alguma confusão!) que mentalmente vociferei, senti um ímpeto - atempadamente contido, como se quer - de perguntar àquela mocinha qual era a anomalia de que a mesma padecia, para ter de ser "levada" por quem quer que fosse a qualquer lugar no mundo. Até porque, temo mais uma vez, a enfermidade só podia ser de cariz mental, considerando que, pelo menos na aparência, a jovem senhora não revelava quaisquer limitações motoras.
"Quando tu me levares a Paris?!"
Não será, "- Quando nós formos a Paris"?!
É que não vejo, realmente, alternativa a esta formulação!
Aquela outra forma de estar... será fruto de acefalia pura?
Da necessidade de se colocar em posição de inferioridade como meio de granjear admiração alheia (apenas a de um tipo muito específico de homem, que não, seguramente, daquele que interessa a qualquer pessoa com um mediano quociente de inteligência, claro está)?
Ou será mera manobra para dar ao companheiro a sensação ilusória de que é ele quem conduz a relação?
"Quando tu me levares a Paris?!"
Apeteceu-me dizer-lhe: "- Chèrie, uma vez lá, não se esqueça de se atirar ao rio Sena. Mas sem bóia nem braçadeiras. E assegurando-se de que não sabe nadar, de não tem «pé» e de que a corrente é muito forte".
Acima de tudo, entristece-me. Entristece-me muito.
Que se vivam relações com esta (falta de) qualidade. Que as pessoas não estejam nos relacionamentos colocando-se, reciprocamente, ombro a ombro. E que assim caminhem. Rumo a Paris ou a outro lugar qualquer.
Falta de paciência a minha, é o que é.

2 comentários:
Minha querida. Mais uma vez fiquei deleitada com o texto. E mais uma vez concordo contigo...ainda se vivem muitas relações à moda antiga com o homem viril no comando!
Muito bom, aliás como sempre!
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