Em espaço. Em significado.
Por isso, faço-o aqui, desde já me desculpando pelos dias que passaram sem que o haja feito. Falta de tempo, ou falta de forças, sei lá.
Conhecemo-nos há cerca de duas décadas, sim.
Tenho sempre como referência que te conheci no início do ano escolar durante o qual completei 16 anos. Aquele em que servi a famosa "sopa" de gelatinas com chantilly que a Mãe do Tó pensou ser, por breves momentos e segundo a descrição feita pelo filho, uma sopa "de verdade".
Quando nos conhecemos, percorríamos os nossos caminhos de All-Star (sabes que ainda compro um par de vez em quando?, é uma paixão que não abandonei e também adoro ver os meus miúdos com eles), sempre botas, que os sapatos de ténis não nos convenciam.
Era o tempo das calças de ganga das marcas da moda, das camisas de flanela aos quadrados, dos brincos muito compridos, em metal e pedrinhas ou madeira, que comprávamos, maioritariamente, no Algarve.
Tinhas o cabelo muito comprido, escadeado. E um jeito que a minha Mãe dizia fazer-lhe lembrar a Cindy Crawford, a tua modelo favorita.
Também tu eras uma aluna exemplar da turma. Lembro-me da primeira aula de matemática do 10.º ano e da súbita e inexplicável embirração da prof. contigo... Da tarde em que, antes de um teste daquela disciplina, "suámos as estopinhas" para compreender como se resolviam as equações trigonométricas - era isto, não era? - e como essa descoberta nos deixou tão felizes que cantámos We are the Champions a alta voz, rindo desalmadamente.
E sim, passámos muitas horas dos nossos dias na casa uma da outra. Ouvimos muita música. Transmiti-te a paixão pelo November Rain - que ainda hoje é uma referência para mim - e ambas idolatrámos o Axel Rose. E o Nuno Bettencourt dos Extreme e do muito batido More Than Words. O cabelo dele era, realmente, admirável.
Escrevemo-nos cartas, lembras-te? Eu escrevia-te em papéis decorados e mesmo perfumados, muito usados naqueles anos idos. Tu também o fazias mas, porque tens alma de artista, por vezes decoravas as folhas em que me escrevias com desenhos teus. E que bonitos que eram.
Lembro-me, sim, dos artifícios utilizados por nós, alternadamente, para termos dispensa das terríveis aulas de educação física. Ainda hoje tenho horror a bolas e a outros objectos que, projectados, podem magoar-nos de formas surpreendentes. Nunca fui aventureira, bem sei.
Isto é também uma dica para nunca me ofertares uma experiência radical, muito em voga nos tempos que correm!
E lembras-te de quando andávamos com a bonecada Simpson (eu, o Bart, tu a Maggie, os nossos favoritos) a eclodir das calças de ganga?! Tanto que isso irritava as Elisabetes da vida, mais aqueloutras que, nessa altura, já andavam a comprar o enxoval aos bochechos.
Curiosamente, todas elas adoravam, precisamente... as aulas de educação física, as únicas em que granjeavam algum reconhecimento.
E, evidentemente, recordo-me bem das férias que passei contigo e com a tua família, no Algarve, e que muito agradeço. Ainda com os teus saudosos Avós, sempre tão afáveis.
Das trocas de roupa (sempre tiveste roupa tão gira!), dos teus banhos a escaldar em pleno mês de Agosto, dos escritos tolos no espelho embaciado, das idas à Trigonometria com os teus incansáveis Pais e de um regresso às tantas da madrugada com a tua Mãe a achar que o Renault Clio ficava sem combustível antes de chegarmos ao apartamento, "- Ó Júlio, mas porque é que não puseste gasolina antes de virmos para aqui?!, ainda ficamos no meio da estrada", e as bombas todas encerradas e o silêncio sepulcral da noite. E nós, simultaneamente, assustadas e divertidas com a situação.
Dos ralhetes do Sr. Mira por pores a crina ao vento "para fazer cabelo à Troll" (ainda tenho aquele que me ofereceste, com o cabelo rosa fucsia) e nós, sentadas no banco traseiro do carro, acompanhadas pelo J.P., ainda menino, a rir "a bandeiras despregadas", quase que indiferentes à fúria do teu progenitor. Ai, se fossem os nossos meninos!, hoje sabemos bem o que é ser Mãe e querer proteger os nossos filhos de todo o mal do mundo.
Quanto às figuras ridículas... continuo a achar que ficavas muitíssimo engraçada de cabelo ao vento, cortado, literalmente, "em bico" e a que apenas faltava algum colorido para bem reproduzir o do dito Troll!
E, se queres que te diga, com toda a franqueza, também não me recordo, concretamente, do motivo pelo qual nos zangámos e deixámos de nos falar.
Parece-me ser um bom sinal. Fosse qual fosse a razão, não deixou marcas vincadas nem ressentimentos.
Deve ter sido, efectivamente, um motivo bastante fútil.
Escreveste que, depois de nos reencontrarmos na vida, estive sempre presente.
Não te enganas. Ainda que, pelas vicissitudes da vida hodierna, não consigamos trocar palavra durante semanas, ou mesmo meses, eu estou sempre lá, para o melhor e para o pior, desde que tu queiras que eu esteja.
Sorri ao ler que, com uma perna às costas, entrei em Direito, no CEJ e me tornei magistrada.
Compreendi o que querias transmitir, mas não pude deixar de sorrir porque, em boa verdade, todas as pequenas/grandes conquistas, na minha vida, não têm sido conseguidas de modo fácil, daquele modo fácil que não deixa marcas em nós.
Decidir sair de Gestão não foi uma decisão fácil e não foi bem digerida, familiarmente, até ao momento em que se soube que entrei na Faculdade de Direito.
Ser admitida no CEJ e frequentar o curso foi uma verdadeira "travessia no deserto" e, tu até sabes, hoje estou ainda a "pagar a factura" do quanto consumi de mim ao longo desta passagem.
E hoje, oh, Amiga, hoje... Já não sei como encaixar-me no sistema e, o outrora certo, transformou-se, da forma mais brutal, em errado.
O que me distinguia pela positiva, passou a ser motivo de punição.
O que me distinguia pela positiva, passou a ser motivo de punição.
Ironias.
"Devo-te", de facto, o marido que tenho.
Lembras-te de lhe chamarmos, em código, ADN?
Bom, eu não te ajudei em nada a conseguires marido (!), mas não posso deixar de te dizer, também aqui, que muito agradeço o teres-me escolhido para ser Madrinha da vossa união.
E sim, sou uma pessoa exigente nas relações. "Sinto-me" por coisa pouca, bem sei.
Gosto de proporcionar àqueles que amo boas sensações, dar-lhes, sempre que posso, um miminho, e ser um porto de abrigo no qual podem entrar sempre que os seus próprios mares estão mais revoltos. Sem julgamentos, sem cobranças, sem "- Eu bem te disse".
Mas prezo muito, também, a reciprocidade, que reputo de essencial em qualquer relacionamento de qualidade.
Quando damos tudo, esperamos tudo dos outros - evidentemente que não me refiro a bens materiais.
Tenho sofrido alguns dissabores ou, para ser mais precisa, alguns desenganos, mas a vida é mesmo assim. E, ainda que a custo, encarei-os de frente. Julgo que, acima de tudo, devemos manter-nos fiéis a nós mesmos, exigir, dos outros, o respeito que lhes oferecemos e lidar, sempre, com verticalidade e transparência. Nunca acreditei em relações "de fachada" e penso que, neste aspecto, não conseguirei mudar.
Não pude deixar de me rir com o parágrafo que escreveste acerca dos meus "maiores prazeres e gostos".
Eles são, de facto, abrangentes, o que faz de mim, convenhamos, uma pessoa muito multifacetada e, por isso, bastante interessante.
Estou, obviamente, minha Amiga, a brincar contigo!..
Esqueceste-te de mencionar os livros. E os discos. E a joalharia. E os produtos de make up. E os acessórios de cabelo e os chapéus. E a boa bijuteria, sempre original. E a culinária!
E, certamente, não conseguiste lembrar-te de muitas outras coisas de que gosto intensamente.
Porque a questão é essa. Quando gosto, gosto intensamente.
Das pessoas. De coisas bonitas, materializáveis ou não. Da sensação de que, por um momento, podíamos apagar todo o cinzento do mundo e respirar bem fundo, deixando-nos inundar por tudo quanto de bom existe.
Mas tu também gostas de muitas coisas... Provavelmente, de todas aquelas de que eu gosto e a que fizeste referência, à excepção dos sapatos, a que não ligas tanto.
E temos tantos, mas tantos gostos em comum.
E sabes qual é, para mim, a melhor das sensações, no que diz respeito aos bens materiais?
É a que experiencio quando ofereço algo a alguém e me é devolvido um sorriso amplo ou um brilhozinho nos olhos.
Se calhar, é porque penso sempre cada presente para cada pessoa em concreto.
Por outro lado, já não suporto aquelas pessoas às quais é quase impossível agradar, ainda que se faça uma busca neste nosso planeta e nos outros. Conseguem ser tão desagradáveis que, oferecer-lhes o que quer que seja deixa de ser um prazer, passando a constituir uma obrigação - ou a fazer-me erradicar o hábito de as presentear, sempre que isso se mostra socialmente viável.
Mas não é esse o teu caso, definitivamente.
Gosto de te presentear e, este ano, tive a vantagem de estar na At Home no dia em que chegou a nova colecção de scrapbooking da Tilda.
Nem sempre se está no sítio errado à hora errada.
E, tens razão, nos últimos anos, apesar dos inúmeros escolhos que têm colocado em perigo a navegação do barco que é a minha vida, aconteceu-me realmente algo de maravilhoso: ser Mãe.
Mas sobre isto não preciso de escrever muito, tu sabes como é porque o sentes todos os dias, na pele de quem deu vida à Matilde e à Maria Clara e de quem daria, não duvido, a sua própria vida por qualquer uma delas.
Sei que ficaste espantada, mas simultaneamente feliz, por ter alterado a minha posição relativamente à descendência. Não careceste, todavia, de explicações da minha parte, aceitaste esta mudança como um processo natural, e agradeço-te por isso.
Devo confessar que a convivência de perto com a Matilde, ainda bebé, despertou em mim sentimentos e uma vontade que - afinal - vivia no meu interior e que eu própria ignorava de pleno.
Do teu papel como Madrinha, que eu e o M. escolhemos para ti (e que tu aceitaste!), espero que nunca abandones a minha Filha, que a engrandeças com o teu sentido de responsabilidade, com a tua dedicação àqueles que amas, com a tua perseverança, também, por aqueles que amas. E isto, ainda que um dia, por absurdo, venhas a sentir que já não tens o suficiente em comum comigo.
Por fim... o teu 35.º aniversário e a festinha que, juntas, organizámos para ti.
Há, de facto, como escreveste, coisas que nem mil palavras agradecem convenientemente.
Esta, porém, não é uma delas. Insisto em que nada há para agradecer e, também, em que senti uma enorme - uma ENORME - satisfação em contribuir para tornar possível aquela tarde sarapintada de cor-de-rosa.
Também eu acho que a mesa estava muito bonita, apesar do pouquíssimo tempo que tivemos para organizar tudo...
Fico imensamente feliz por, desta forma, te ter dado, como escreveste, "o maior dos presentes de aniversário". Sei que o fiz com amor e sempre e apenas com a finalidade última de te dar um mimo, daqueles que eu gosto tanto de dar.
Eu é que agradeço por me teres permitido participar na organização desse teu dia especial.
A propósito, a Fio de Luz Fotografia preparou-te uma surpresa, imortalizando esta data. Mas em tempo a verás.
Agradeço-te, também, Amiga, pelas palavras tão amáveis que me dirigiste, esperando continuar a ser útil no que possa valer-te.
Um brinde a nós, aos que amamos e à Amizade que nos une.

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