"Estava eu tranquilo, imerso em amena e burocrática leitura, quando fui abalroado por este parágrafo:
“Porém, estamos em crer que estas transformações da estilística e da arquitectura narratológica vão integradas numa metamorfização bem mais ampla de alegorizações de uma distopia avessa à dimensão futurante em forte contraste com as subversões portadoras de outros mundos que se encontravam [...]”
Atordoado, saí da leitura com o colete vestido e a declaração amigável de acidente na mão direita. Liguei para o 112. Só quando ouvi a voz do outro lado é que me dei conta que estava em casa, a andar às voltas entre o quarto, a cozinha e a sala, e que a chamada de emergência era dispensável. Aquele parágrafo, ou o que resta dele e que, desgraçadamente, é quase tudo, pode ser encontrado na biografia de José Saramago, da autoria de João Marques Lopes. Não quero ser demasiado severo. Tal como a nossa vida pode mudar de um momento para o outro, também uma frase pode ser vítima de uma série de improbabilidades em forma de palavras: tropeça numa “narratológica”, tenta agarrar-se à “metamorfização” mas a “alegorização” não ajuda e, no momento em que está prestes a chegar ao destino, espetam-lhe com uma sempre desagradável “dimensão futurante”. É assim que uma frase com um início de vida tão auspicioso – aquele “porém” capaz de nos engravidar de esperança e cepticismo como só as conjunções adversativas – chega espezinhada ao fim do dia e da pena do autor".
Não consigo evitar.
Quando for grande quero ser assim.
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